Sumário
Num país de PME industriais, Portugal não ganhará pela escala do volume, mas pela capacidade de transformar conhecimento, materiais, digitalização e colaboração em produtos próprios e produtividade
Descrição
A Europa voltou a falar de indústria, competitividade e soberania tecnológica. O relatório Draghi tornou evidente que o modelo europeu está sob pressão: produtividade lenta, energia cara, concorrência global, demografia desfavorável e necessidade de investir nas transições verde e digital.
Mas o problema europeu não é apenas falta de fábricas. É falta de renovação da liderança tecnológica. A Europa continua a ter empresas industriais fortes, mas tem dificuldade em fazer crescer novas empresas inovadoras até posições de decisão, investimento e mercado.
Portugal deve ler este diagnóstico com especial atenção. Temos competência industrial, centros tecnológicos, universidades, start-ups, programas públicos e empresas exportadoras. O que raramente temos é a capacidade de transformar tudo isso numa nova geração de líderes industriais.
A pergunta é simples: Portugal quer continuar a ser um excelente fornecedor ou quer tornar-se também um país que propõe produtos, sistemas e soluções industriais?
Nos plásticos, compósitos, moldes, ferramentas, metalomecânica e sistemas avançados de fabrico, Portugal construiu uma reputação internacional assente em qualidade, flexibilidade e capacidade de resposta. Durante décadas, essa competência foi puxada por um grande cliente: o setor automóvel. Esse percurso trouxe exigência, produtividade, certificação, automação e capacidade exportadora. Mas o que ontem foi uma força pode hoje transformar-se numa vulnerabilidade.
Somos, em muitos casos, Tier 2. Em alguns casos, Tier 1. Raramente somos donos da arquitetura do produto.
Enquanto os centros de decisão estiverem no centro da Europa, nos Estados Unidos ou na Ásia, a margem estratégica portuguesa continuará condicionada.
Portugal não deve iludir-se com uma estratégia de volume. Não competiremos com a China, a Turquia ou o Brasil em grandes séries industriais indiferenciadas. A nossa ambição deve ser outra: escolher nichos exigentes onde a engenharia aplicada, os materiais avançados, a customização, a rapidez de industrialização e a proximidade ao cliente sejam mais importantes do que o custo unitário de uma produção massificada.
Portugal não precisa de fabricar tudo; precisa de ser indispensável em algumas coisas.
Esta indústria não é abstrata. A metalurgia, a metalomecânica, os plásticos, os compósitos e o automóvel criam emprego qualificado, exportações, salários e capacidade técnica acumulada. Segundo dados setoriais da AFIA, a indústria portuguesa de componentes para automóveis representa cerca de 14,7 mil milhões de euros de volume de negócios e emprega diretamente mais de 60 mil pessoas. Dentro desta fileira, a metalurgia e a metalomecânica representam cerca de 31% da atividade, enquanto os plásticos, borrachas e compósitos representam cerca de 20%.
Isto mostra que a indústria automóvel não é apenas montagem final. É uma escola de engenharia, materiais, processo, qualidade e exportação.
Mas a relevância dos metais, polímeros e compósitos de alto desempenho não se esgota no automóvel. Aços avançados, alumínio, magnésio, titânio, plásticos técnicos e compósitos são decisivos para reduzir peso, aumentar resistência, melhorar eficiência energética, resistir à corrosão, integrar funções, reforçar circularidade e permitir novas geometrias de produto em setores como aeronáutica, defesa, saúde, energia, equipamentos industriais e mobilidade.
Quando bem posicionados, não são apenas matérias-primas transformadas; são soluções de engenharia.
O PRR e as Agendas Mobilizadoras reconheceram parte deste desafio. Criaram consórcios, aproximaram empresas, universidades, centros tecnológicos e entidades de interface, e orientaram investimento para inovação mais próxima do mercado. Esse passo foi importante. Mas o próximo teste é mais exigente: garantir que essa articulação não termina com o financiamento e se transforma em capacidade industrial permanente, com produtos, processos, certificação, vendas internacionais e poder de decisão.
Neste ecossistema, os Centros de Tecnologia e Inovação têm um papel decisivo. Reduzem o risco da inovação industrial e fazem a ponte entre conhecimento, materiais, equipamentos, normas, certificação e mercado. Num país de PME, onde muitas empresas não têm massa crítica interna para testar, validar, automatizar ou industrializar novos produtos, os CTI são parte da infraestrutura que permite transformar projetos de inovação em capacidade produtiva real.
Mas a inovação empresarial tem de manter agilidade. Nem todos os projetos precisam de consórcios complexos. As empresas têm de poder decidir, testar e avançar rapidamente. A autonomia, porém, não deve significar isolamento.
Universidades e CTI devem estar envolvidos sempre que acrescentem conhecimento, capacidade experimental, validação independente, certificação ou ligação a novas tecnologias, seja como parceiros, seja como entidades subcontratadas.
É nesta colaboração que está uma parte importante da resposta. A soma de conhecimento científico, compreensão económica, domínio industrial, capacidade experimental e leitura de mercado é maior do que cada uma das partes isoladas. Quando funciona bem, esta cooperação não resolve apenas problemas técnicos; cria cultura de partilha, identifica oportunidades e abre caminhos de diversificação.
O investimento estrangeiro deve ser lido da mesma forma. É uma oportunidade quando abre mercados, acelera aprendizagem e puxa cadeias de fornecimento nacionais para níveis mais exigentes. O seu valor estratégico será tanto maior quanto maior for a capacidade portuguesa para se especializar, capturar conhecimento e subir na cadeia de valor.
O exemplo basco é útil precisamente por isso. Não se trata de copiar Mondragon ou qualquer outro modelo institucional. Trata-se de perceber que escala não é apenas dimensão individual da empresa. Escala também pode ser coordenação, confiança, financiamento, especialização, formação e internacionalização conjunta.
Há uma diferença profunda entre um consórcio de projeto e uma plataforma industrial. O primeiro termina quando acaba o financiamento. A segunda continua porque tem mercado, governação, foco tecnológico e ambição comercial.
Sem liquidez, não há inovação industrial séria. Num país de PME, pedir internacionalização e ambição tecnológica sem resolver a tesouraria é pedir às empresas que assumam risco estrutural com instrumentos desenhados para realidades financeiras que muitas não têm.
Muitos apoios nacionais à I&D&I continuam dependentes da capacidade das empresas para pré-financiar despesa.
Adiantamentos de 10%, 13% ou 20% são insuficientes em projetos industriais com contratação de talento, equipamento, certificação, prototipagem, ensaios e ciclos longos de validação. A diferença face a alguns instrumentos europeus não é apenas administrativa; é estratégica.
Se queremos PME industriais e start-ups deep-tech em projetos ambiciosos, os instrumentos públicos têm de ganhar agilidade, flexibilidade e celeridade. AI², ANI, FCT, IAPMEI, CCDR, AICEP e demais entidades devem ser pensadas a partir do ciclo real da empresa, não apenas do ciclo formal do aviso.
Há ainda uma frente incontornável: a valorização das tecnologias digitais. Não se trata apenas de adotar software, sensores, automação, inteligência artificial ou ferramentas de análise de dados. Trata-se de transformar essas tecnologias em produtividade, qualidade, previsibilidade, redução de desperdício, novos serviços e melhor decisão industrial.
Esta questão é ainda mais crítica num país envelhecido. Portugal não aumentará sustentadamente a produtividade apenas trabalhando mais horas, nem esperando que a demografia resolva o que a economia não resolveu. Se somos um dos países mais envelhecidos da Europa, se a indústria enfrenta dificuldade em atrair talento e se a opinião pública continua ambivalente perante a imigração, então a digitalização deixa de ser um tema de modernidade e passa a ser uma condição de sobrevivência produtiva.
A imigração deve ser discutida com seriedade. Os dados demográficos tornam evidente que Portugal precisa de imigração segura, regulada, qualificada e bem integrada. A pergunta séria não é se precisamos de pessoas; é como atraímos capital humano, reconhecemos qualificações, formamos rapidamente, integramos culturalmente e criamos percursos de progressão.
A tecnologia digital também não cria valor por instalação. Cria valor quando encontra processos, equipamentos, materiais e pessoas que sabem onde está a perda, o tempo morto, a variabilidade, o defeito, o consumo excessivo de energia ou a oportunidade de novo serviço. A inteligência artificial só será industrialmente relevante se for ligada aos dados certos, aos problemas certos e ao conhecimento profundo do processo produtivo.
Por isso, a transformação digital da indústria portuguesa não pode ser conduzida apenas por quem domina tecnologia digital, nem apenas por quem domina a fábrica. Tem de haver uma verdadeira passagem de mão entre competências digitais e conhecimento industrial.
A Europa reconheceu esta necessidade. A Década Digital e os European Digital Innovation Hubs apontam para teste antes do investimento, acesso a conhecimento técnico, formação, aconselhamento financeiro e ligação a redes europeias. Portugal também reconhece este caminho. O desafio já não é reconhecer a importância da digitalização; é facilitar a sua implementação.
Essa facilitação tem de estar mais próxima de quem conhece as empresas: associações setoriais, CTI, líderes empresariais, universidades, politécnicos e agências públicas. A colaboração tem de sair do papel e chegar à fábrica, com programas desenhados para a realidade financeira e operacional das PME.
Portugal precisa de se capacitar para este novo paradigma devido às políticas de inovação, não apesar delas. Os instrumentos europeus e nacionais devem ser mais do que financiamento; devem ser mecanismos de aprendizagem coletiva, especialização, escala e exigência.
Para as empresas, isto significa transformar inovação em mercado. Para o Estado, significa criar instrumentos mais simples, rápidos e orientados a valor. Para universidades e Centros de Tecnologia e Inovação, significa aproximar conhecimento, validação e industrialização.
Nenhum destes atores resolve sozinho o problema. Mas juntos podem fazer aquilo que Portugal precisa: escolher nichos, criar produtos, aumentar produtividade e subir na cadeia de decisão.
Como me marcou uma frase do Eng. Rui Neto, na minha primeira fase profissional: “Perante um grande desafio, na realidade, só podemos ter uma posição: ou estamos do lado do problema, ou do lado da solução.”
A indústria portuguesa já provou que sabe responder. O próximo teste é saber se consegue propor. E, sobretudo, se consegue estar do lado da solução.